DIA MUNDIAL DE CONSCIENTIZAÇÃO DO AUTISMO (2 DE ABRIL)

NO TATAME, ALUNOS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA, TEA, ENCONTRAM ESTRUTURA, RITMO E PERTENCIMENTO
Às vésperas do Dia Mundial de Conscientização do Autismo (2 de abril), professor de Jiu-Jitsu de Vila Velha Fanjo Brasil, revela como a arte marcial transforma a vida de 23 alunos com Transtorno Espectro Autista, e por que famílias relatam melhoras exponenciais desde as primeiras aulas
Quando se fala em Jiu-Jitsu, a primeira imagem que vem à mente costuma ser a de combates intensos e golpes contundentes. Mas em Vila Velha, um professor que é faixa Preta de Jiu-Jitsu. de Judô, e árbitro dos principais campeonatos, faz com que a arte marcial tem cumpra um papel bem diferente: o de ferramenta terapêutica e de inclusão para pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Com nove anos de experiência como professor e duas décadas de envolvimento com o esporte, Fanjo Brasil atende hoje 23 alunos com TEA em turmas específicas — e através do Jiu-jitsu os resultados, segundo as famílias, superam as expectativas.
Contramão do preconceito
A resistência de algumas famílias no início é compreensível: a ideia de colocar uma criança com TEA em um esporte de contato pode soar, à primeira vista, como uma contradição. O professor, porém, argumenta que é exatamente o contato físico controlado — uma das marcas do Jiu-Jitsu — que faz a diferença.
Diferente de esportes coletivos tradicionais o Jiu-Jitsu oferece um ambiente estruturado que trabalha tanto o corpo quanto a mente de forma integrada”, explica o professor. “A pressão profunda durante os treinos — como a pegada ou o controle no solo — tem um efeito organizador e calmante para o sistema sensorial, similar ao efeito de cobertores ponderados’, explica ele.
*Rotina, foco e habilidades sociais no tatame*
Além da dimensão sensorial, a estrutura das aulas — que seguem um ritual fixo de saudação, aquecimento, técnica e prática — oferece a previsibilidade que muitos indivíduos com TEA necessitam para se sentir seguros. Saber exatamente o que vai acontecer em cada etapa reduz a ansiedade e cria um ambiente emocionalmente estável.
Alunos com TDAH
Já para alunos que convivem com TDAH ou dificuldades de concentração, o esporte funciona como um verdadeiro “xadrez humano”: cada movimento exige uma resposta lógica imediata, mantendo o cérebro no presente. O tatame também se revela um espaço de interação social protegida — onde o contato visual, a leitura da linguagem corporal do parceiro e o sentimento de pertencimento a uma equipe combatem o isolamento de forma natural e gradual.
*Famílias relatam melhora exponencial*
O professor Fanjo Brasil atende alunos com TEA em turmas regulares há nove anos, mas foi há dois anos que passou a organizar turmas específicas para esse público. Desde então, o retorno das famílias tem sido unânime: todas relatam melhoras significativas já nas primeiras sessões. “Todas são extremamente gratas e relatam que a evolução foi exponencial desde o início da prática”, afirma ele.
O profissional ressalta, no entanto, que é necessário um período de adaptação — cujo tempo varia conforme o nível de suporte e as características individuais de cada aluno. “Há a necessidade de um tempo de ajuste, uma ambientação por parte do indivíduo com TEA. Mas os benefícios são notados já nas primeiras intervenções”, garante.
Jiu-Jitsu é para todos
As diferentes gradações do espectro autista podem parecer uma barreira. Mas Fangio garante que esse é um limite que não existe. “Os indivíduos que demandam um nível de suporte mais alto têm uma maior dificuldade inicial, mas isso não é um empecilho para o paulatino desenvolvimento da prática. O Jiu-Jitsu é para todos”, enfatiza. A mesma abertura se aplica a outras artes marciais de origem oriental — que, segundo ele, compartilham características terapêuticas semelhantes, desde que aplicadas por profissionais com metodologia adequada.
No cenário internacional, o Brasil aparece como pioneiro nesse campo, embora estudos sobre o tema já comecem a surgir nos Estados Unidos. A abordagem exige, da parte do professor, paciência, expectativas ajustadas e metodologias em constante adaptação. “As abordagens são diferentes e necessitam de adequações a todo momento”, reconhece o professor.
Fanjo Brasil é graduado em Educação Física pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), pós-graduado em Fisiologia do Exercício e em Atendimento a Grupos Especiais pela Universidade Veiga de Almeida, e também analista do comportamento com formação em ABA (Applied Behavior Analysis) e possui capacitação profissional em TEA pelo Centro de Aperfeiçoamento e Estudos para Profissionais da Saúde (FAECH).
Sobre o Dia Mundial de Conscientização do Autismo
Instituído pela ONU em 2007, o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado em 2 de abril, busca ampliar o debate sobre inclusão, acessibilidade e qualidade de vida para pessoas com TEA. A experiência deste professor capixaba reforça que a inclusão pode acontecer nos mais diversos espaços — inclusive no tatame.
Professor Fanjo Brasil

Por Alexandre Rossoni