
Doença falciforme: brasileiros com a doença vivem até 37 anos a menos em condição que afeta principalmente a população negra

Um estudo de 2023, publicado na revista científica Blood Advances e organizado pela Sociedade Americana de Hematologia, revelou que os brasileiros portadores da doença falciforme observam uma redução de até 37 anos em sua expectativa de vida.
A pesquisa teve como base dados extraídos de mais de 6,5 milhões de certidões de óbito emitidas entre os anos de 2015 e 2019 no Brasil, das quais mais de 3 mil foram de pessoas com a doença falciforme.
A análise concluiu que, entre as pessoas que não sofriam da doença, a idade média ao morrer era de 69 anos, enquanto entre os portadores da condição, essa idade era de 32 anos, ou seja, 37 anos a menos de sobrevida.
“Esse é um dado impactante e traduz o desafio que a doença falciforme pode representar para os pacientes, em função das complicações causadas pela doença e da dificuldade de acesso a tratamentos em algumas regiões do Brasil”, explica o hematologista Douglas Covre Stocco, no Dia Nacional de Luta pelos Direitos das Pessoas com Anemia Falciforme, celebrado em 27 de outubro.
Entre as principais dificuldades enfrentadas por esses pacientes estão a falta de identificação da gravidade nos atendimentos de emergência, leitos de UTI e de hospitalização, assim como outras questões sociais.
“Em muitos casos, a doença falciforme pode causar dores e outros sintomas e consequências incapacitantes, que retiram os pacientes do mercado de trabalho e podem torná-los dependentes de cuidados. Tudo tem um custo, tanto financeiro quanto social, e nem sempre as famílias conseguem administrar as demandas adequadamente”, reflete o médico.
A pesquisa revelou ainda que o risco de morte entre crianças com doença falciforme, na faixa de 1 a 9 anos, é 32 vezes maior em comparação com quem não vive com a doença.
População negra
A doença falciforme é mais prevalente na população negra, atingindo, segundo o Ministério da Saúde, cerca de 8% desse recorte populacional. A mutação genética causadora da doença, que faz com que os glóbulos vermelhos (hemácias) adquiram um formato curvo, como uma foice, surgiu no continente africano e, por isso, a condição afeta majoritariamente as pessoas negras e seus descendentes.
“As hemácias, células do sangue responsáveis pelo transporte de oxigênio, têm normalmente o formato arredondado e são elásticas. Por conta da mutação genética, os portadores da doença falciforme apresentam hemácias duras e em formato de foice. Dessa forma, a circulação sanguínea é prejudicada, levando a diversos problemas, como dores, cansaço, atraso no crescimento, risco de problemas neurológicos, cardiovasculares, oftalmológicos, pulmonares e renais, entre outros”, explica o hematologista.
O teste do pezinho é uma importante ferramenta para a detecção precoce da doença falciforme em crianças, por identificar essa condição. Isso é fundamental porque a descoberta precoce possibilita o acesso mais rápido ao acompanhamento e tratamento, visando reduzir as dores e complicações e melhorar a qualidade de vida do paciente, bem como aumentar a sobrevida.
“A doença falciforme pode causar intensas crises de dor e provocar complicações em diversos sistemas e órgãos do corpo humano. Entre os sintomas, a redução na circulação sanguínea pode causar cansaço, palidez e aumentar a tendência a infecções”, alerta Stocco.
A doença falciforme tem tratamento adequado e o paciente deve ser acompanhado regularmente por um médico hematologista. A doença pode ser curada por meio do transplante de medula óssea e, talvez em um futuro próximo, a terapia gênica possa se firmar como alternativa. A dificuldade, nesses casos, é que a maioria dos pacientes não é candidata ao procedimento pelos critérios de elegibilidade ou por não ter um doador compatível.
Por Fabio Andrade