Cultura cachoeirense é celebrada com lançamentos e batizado de capoeira em Vargem Alegre

 
Foto: Luan Volpato.

Valorização, resgate e manutenção do patrimônio imaterial de Cachoeiro de Itapemirim: esse foi o tom da programação cultural ocorrida na comunidade quilombola de Vargem Alegre, em São Vicente, no último sábado, dia 1º. Os três projetos realizados contaram com intensa participação da população local e marcaram a entrega de iniciativas estruturantes para a memória e para a educação patrimonial da região.

O evento teve início com a troca de cordéis da capoeira, ato em que o aluno recebe uma nova graduação ou joga capoeira na roda pela primeira vez, após um ciclo de aprendizagem teórica e prática. Neste caso, diversas crianças e adolescentes vêm adquirindo conhecimentos com oficinas que compõem o projeto “Escola de Caxambu e de Capoeira de Vargem Alegre”. Por meio desse programa de educação patrimonial, o mestre de caxambu Edson Ventura Paula e o capoeirista Carlos Ronaldo Caitano ensinam essas duas práticas ancestrais a jovens aprendizes, em uma parceria com o grupo de capoeira Filhos da Princesa do Sul.

Durante a solenidade do batizado de capoeira, cada aluno recebeu seu respectivo cordel, peça repleta de simbolismo para os praticantes. Um deles é Raphael Veronez, que afirma: “Sem o projeto, eu não teria me desenvolvido na capoeira e na escola, nem feito os amigos que eu tenho hoje, já que eu tinha dificuldade de fazer amizades”. “Ver o engajamento desses jovens é muito gratificante. Mostra que estamos no caminho certo para criar novos praticantes e defensores das nossas raízes”, comenta o mestre Edson.

Dando sequência às ações de valorização das tradições cachoeirenses, ocorreu o lançamento de dois projetos realizados por intermédio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura “Lei Rubem Braga”, da Prefeitura Municipal de Cachoeiro: o site do grupo de caxambu Santa Cruz, do quilombo Monte Alegre, e o “Registro sonoro dos jongos do caxambu cachoeirense”.

A partir de agora, qualquer usuário pode compreender melhor o significado do caxambu, conhecer o surgimento, a história e as conquistas do grupo Santa Cruz, a função dos seus integrantes, as reportagens já veiculadas sobre ele e uma rica galeria de fotos e vídeos. Luan Volpato, que integra a equipe técnica do projeto e também é fotógrafo do grupo, comenta que “agora o Santa Cruz passa a ter ainda mais alcance e proporção, com um ambiente online próprio, que foi cuidadosamente pensado para reunir o máximo de informações e documentos a seu respeito. Enfim, um produto à altura da importância do grupo”.

“Levar nossa história para o mundo virtual permite à sociedade conhecer a nossa trajetória e interagir com a gente. Oferecer conhecimento é muito importante para reduzir o preconceito,” afirma a mestra Zeli Ventura. O endereço para acessar o portal do Caxambu Santa Cruz é www.caxambusantacruz.com.br. Ele é totalmente responsivo (ou seja, pode ser acessado a partir de qualquer dispositivo ou tela), intuitivo e de fácil navegação.

Já o segundo grande lançamento da ocasião foi uma iniciativa que documenta, em áudio, os jongos dos grupos Santa Cruz e Alegria de Viver – dois grandes representantes do caxambu em Cachoeiro de Itapemirim. Basicamente, os jongos são os cantos praticados nas rodas de caxambu e têm a função de reforçar memórias que foram e são fundamentais para a história de resistência do povo negro brasileiro. O projeto “Registro sonoro dos jongos do caxambu cachoeirense” disponibiliza esses cantos na internet, contribuindo para salvaguardar as suas letras e a sua sonoridade.

“Gravar os jongos é um passo essencial para resgatar saberes ancestrais. Garante que essa forma de comunicação, forjada na persistência dos indivíduos negros à escravidão, não se perca com o tempo e seja mais facilmente difundida para as novas gerações, uma vez que está disponível de forma gratuita e com acesso mundial”, destaca Genildo Coelho Hautequestt Filho, gestor cultural e coordenador geral do projeto.

No endereço www.linktr.ee/patrimonioimaterial.ci é possível acessar não apenas os locais onde as gravações estão disponibilizadas, mas também um e-book especial contendo a transcrição de todos os jongos registrados, além de fotografias dos dois grupos de caxambu.

Democratização e impacto social
O sucesso da programação em Vargem Alegre reafirma a importância de descentralizar os recursos culturais. Todas as ações realizadas foram gratuitas e abertas à visitação pública, contando com o apoio do Instituto de Preservação do Patrimônio Cultural Ádapo (certificado como Ponto de Memória) e da Associação de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial Cachoeirense (reconhecida como Pontão de Cultura e Ponto de Memória).

A democratização do acesso digital a esses bens culturais (através do e-book, dos áudios e do novo portal) e o fortalecimento educacional das comunidades quilombolas evidenciam o forte impacto social dessas iniciativas. Tais ações garantem que as raízes culturais sejam mantidas vivas, ao mesmo tempo em que promovem a inclusão e o desenvolvimento humano sustentável.

Resumindo bem o sentimento de todos os presentes, a mestra Ormyr Caitano, mestra do caxambu Alegria de Viver, declara: “É a nossa história que dá sentido ao que somos. Nossa cultura, que começou com nossos antepassados, não pode se acabar. A memória precisa resistir”.
 
Associação de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial Cachoeirense