Fim do PIS e da Cofins vai pesar mais para clínicas, consultorias e transportadoras. Pequenos negócios que atendem gigantes como Vale e Arcelor correm o risco de perder contratos se não mudarem de rota
Se você é dono de um negócio ou administra uma empresa no Espírito Santo e ainda acha que a Reforma Tributária é assunto distante ou restrito a grandes indústrias, é hora de abrir o olho: a mudança já bateu à porta e vai mexer diretamente no caixa.
Com a extinção definitiva do PIS e da Cofins, entra em cena a nova CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços). O que parece apenas uma troca de siglas traz, na prática, uma reviravolta para quem hoje está enquadrado no Lucro Presumido ou no Simples Nacional.

Mônica Porto
A diretora da Neocount Contabilidade e especialista em reestruturação tributária, Mônica Porto, alerta que o tempo de espera acabou. “Existe uma ilusão perigosa de que a reforma só atinge as multinacionais. A realidade é que a tempestade fiscal já está armada nos bastidores e vai atingir em cheio o caixa das médias e pequenas empresas. A hora de recalcular a rota é agora”, adverte a especialista.
O impacto mais agressivo e imediato recai sobre os prestadores de serviço — como clínicas médicas, laboratórios, consultorias e escritórios de tecnologia. Hoje, a maioria dessas empresas recolhe PIS e Cofins de forma cumulativa, com uma alíquota combinada e fixa de 3,65%. Com a chegada da CBS, essa cobrança deve saltar para um patamar estimado entre 8,8% e 9,5%.
Segundo Mônica, o discurso oficial tenta amenizar o aumento afirmando que o novo sistema permite abater impostos por meio de créditos gerados nas compras do negócio. Na prática do setor de serviços, porém, essa lógica esbarra em uma armadilha. “Qual é o maior gasto de uma clínica médica ou de uma consultoria? Não são máquinas ou mercadorias, mas pessoas: médicos, secretárias, especialistas e folha de pagamento. E a folha de salários não gera um único centavo de crédito fiscal no novo modelo de IVA. Na ponta do lápis, o imposto quase triplica e a capacidade de abatimento é quase zero”, explica Mônica.
A conta é direta: uma clínica que fatura R$ 50 mil por mês e pagava cerca de R$ 1.825 de PIS/Cofins verá a guia saltar para quase R$ 4.500 com a CBS a 9%, sem custos dedutíveis suficientes para equilibrar o cálculo.
Até para as transportadoras de carga, que compram óleo diesel e peças com frequência e têm direito a créditos, o cenário exigirá rigor extremo. A diretora da Neocount ressalta que qualquer nota fiscal de abastecimento ou manutenção preenchida incorretamente pelo posto de combustível na estrada significará crédito rejeitado e imposto pago em dobro no fechamento do mês.
*O dilema do Simples: Quem atende gigantes corre o risco*
No Simples Nacional, o drama não atinge todo mundo da mesma forma. Depende exclusivamente de para quem a empresa vende. De acordo com a especialista, se o negócio vende para o consumidor comum — como uma padaria, uma farmácia ou uma barbearia de bairro —, a vida segue normalmente na guia única do DAS. O problema surge quando a pequena empresa presta serviços para grandes corporações, como Vale, ArcelorMittal ou Águia Branca.
“As multinacionais vivem da lógica de abater impostos em suas cadeias de compras. Se o fornecedor do Simples continuar pagando a CBS embutida na guia do DAS, ele transfere um crédito tributário minúsculo para o cliente corporativo. O serviço dele, na prática, fica indiretamente mais caro. Sem pensar duas vezes, o departamento de compras da grande empresa vai trocar esse pequeno prestador por um concorrente que garanta o repasse integral dos créditos”, destaca Mônica Porto.
Para não ser expulso da carteira dessas companhias, o pequeno empresário precisará fazer uma escolha formal: optar por apurar e recolher a CBS “por fora” da guia do Simples a partir de janeiro. A diretora da Neocount explica que essa manobra preserva os contratos e mantém a empresa competitiva, mas cobra um preço: acaba com a tranquilidade da guia única e exige uma rotina fiscal muito mais sofisticada.
Para Mônica, deixar a decisão para o fim do ano é o maior erro que o gestor capixaba pode cometer. “Trata-se de escolher entre o conforto burocrático de pagar uma guia só ou a sobrevivência comercial da empresa no mercado. O planejamento tributário não é mais um item secundário de prateleira, mas a ferramenta estratégica que vai definir quem continuará de portas abertas e lucrativo nos próximos anos”, conclui a diretora.
📌 RAIO-X: O QUE FAZER AGORA
- Mapeie seus clientes: Identifique que percentual da sua receita vem de pessoas físicas e quanto depende de contratos corporativos com médias e grandes empresas (B2B).
- Simule os números com o contador: Calcule a nova despesa com a CBS no Lucro Presumido e analise se a transição para o Lucro Real passa a ser financeiramente mais vantajosa.
- Exija notas fiscais 100% corretas: Se sua empresa compra combustível, ferramentas ou peças, cada erro no documento fiscal do fornecedor agora vira prejuízo direto no bolso.
Redação – RF Comunicação