Quem ensina também muda: as histórias que os professores do Ponte levam para casa

Entre a lembrança de um pai que deixou o interior do Ceará e a alegria de ver um aluno encontrar as próprias palavras, dois professores contam como seus estudantes mudam a maneira de olhar para o que fazem
 
 
 Pedro Cavalcante, Professor de matemática do Instituto Ponte
 
Toda quarta-feira, em 2025, o professor de matemática Pedro Cavalcante, do Instituto Ponte, se conectava para dar aula a Ariane, de 14 anos, então aluna do 9º ano. Ela estava em Novo Oriente, no interior do Ceará. Para Pedro, o nome daquela cidade tinha uma história muito anterior ao encontro dos dois: era onde seu próprio pai havia nascido e crescido.
 
Em 1989, seu Antônio deixou Novo Oriente aos 16 anos, com uma passagem só de ida para São Paulo. Filho de pescador, sem o ensino fundamental completo, foi trabalhar na construção civil. Vieram os alojamentos frios, os banhos gelados de madrugada e as jornadas exaustivas. Pedro conta que o pai já se esforçava para oferecer um futuro melhor a um filho que ainda nem conhecia.
 
Foi também daquele homem, cuja escolarização havia sido interrompida, que veio o incentivo para Pedro estudar. A curiosidade do pai alimentou no filho o amor pela educação e pela matemática.
 
Anos depois, diante de uma tela, o professor encontrou uma adolescente da mesma cidade, agora com a oportunidade de construir outro caminho: “Quando eu dou aula para a Ariane, eu enxergo nela o próprio reflexo do meu pai, mas com um futuro completamente reescrito.”
Pedro gosta de imaginar que Ariane também poderá sair de Novo Oriente em busca dos seus sonhos. Deseja, porém, que essa partida aconteça em outras condições: com a possibilidade de escolher, de ingressar em uma universidade como a USP, de seguir estudando. É o futuro que ele torce para ajudá-la a alcançar.
 
A convivência com a aluna deu outro sentido ao seu trabalho. Naquelas aulas, a trajetória do pai e as possibilidades de Ariane passaram a fazer parte da mesma reflexão: o que pode mudar na vida de alguém quando o acesso à educação chega a tempo?
“Dar aula para a Ariane mudou totalmente a minha visão sobre o que eu faço”, conta.
 
Um pedido para levar nas férias
 
 
Mili Maquarte, professora de redação do Instituto Ponte
 
Para Mili Maquarte, professora de redação do Instituto Ponte, uma dessas histórias começou com a decisão de ficar.
 
Diante de uma proposta profissional atrativa, ela escolheu permanecer ao lado de jovens que queriam muito aprender. Essa vontade também a desafiava: para acompanhá-los, precisava buscar novas formas de ensinar.
 
Ao comunicar sua decisão à diretora pedagógica, Fabiane Caetano, Mili perguntou o que ela gostaria que fizesse pelos alunos. A resposta foi breve: ensinar os meninos a ler o mundo.
 
Foi com esse pedido que a professora saiu de férias. Durante o recesso, pensou em como levá-lo para as aulas. Assim, nasceu o Curta Leitura, projeto que aproxima os estudantes de contos, crônicas, poemas, músicas, documentários e curtas, seguidos de debates ou tertúlias literárias. A ideia é ampliar o repertório cultural dos jovens e ajudá-los a interpretar a realidade, construir argumentos e pensar criticamente.
 
Meses depois, Matheus, aluno da primeira série do ensino médio no Darwin de Vitória, mostrou a Mili uma redação que havia recebido nota 960. Naquele texto, a professora encontrou uma resposta ao pedido que a acompanhara nas férias.
 
Ao escrever sobre um tema de saúde pública, o estudante recorreu a Jeca Tatu, personagem de Monteiro Lobato discutido nas aulas. Ele havia feito uma conexão entre aquela leitura e a questão proposta, usando o que aprendera para sustentar o próprio argumento.
 
Junto à nota, havia um comentário do professor da escola, que reconhecia a qualidade do repertório, o esforço e a dedicação de Matheus. Para Mili, ler aquele elogio era uma alegria a mais. O jovem tinha seu trabalho reconhecido e mostrava que sabia o que fazer com o conhecimento que vinha construindo.
 
“O que me alegra é quando eu vejo os nossos alunos serem reconhecidos pelo brilhantismo e dedicação”, afirma a professora.
 
O pedido de Fabiane ganhava forma nas palavras de Matheus. Mili havia preparado as leituras, conduzido as conversas, aberto espaço para a reflexão. Coubera ao estudante estabelecer aquela relação e decidir como usá-la. Era esse movimento, de vê-lo pensar por si, que tornava a conquista tão especial para ela.
 
O que fica com quem ensina
 
No Dia do Professor, é comum perguntar aos alunos quais educadores marcaram suas vidas. Os relatos de Pedro e Mili permitem fazer a pergunta também na outra direção.
 
Nas aulas com Ariane, Pedro reencontrou parte da própria origem e passou a enxergar de outro jeito o que seu trabalho pode significar na vida de alguém. Na redação de Matheus, Mili viu ganhar forma o que buscava ao decidir ficar: ajudar um jovem a ler o mundo e construir suas próprias respostas.
 
São essas as histórias que levam para casa. Pedro já não olha da mesma maneira para a cidade de onde seu pai saiu. Mili encontra, no pensamento de um estudante, novas razões para permanecer.
 
Por Duda Moro
C2 ´Comunicação com Conteúdo