Cine Luso abre sua segunda edição com lançamento do livro de Emmanuel 7Linhas

LMostra também homenageia o multiartista com uma instalação no Cine Metrópoles

A II Mostra Cine Luso Brasil, que acontece entre os dias quatro e 14 de novembro, terá início com o lançamento do livro Egodistônico, do multiartista Emmanuel 7Linhas, falecido em maio deste ano. A obra, da Editora Cousa, conta com 31 poesias e será lançada no primeiro dia do evento, a partir das 18h30, na Casa Cousa, Centro de Vitória, durante o Sarau do Fim do Mundo, com declamação de poesias, apresentações musicais e de dança.

Emmanuel 7Linhas era poeta, compositor, performer, cantor, produtor cultural, rapper e educador social. Foi assassinado enquanto fazia um trabalho social junto a pessoas em situação de rua no bairro Ibes, em Vila Velha. Na ocasião, uma moto com duas pessoas passou no local e efetuou diversos disparos, atingindo fatalmente o multiartista e uma mulher chamada Kézia Kelly, que vivia em situação de rua, além de ferir um homem que também estava na mesma situação.

O livro, cujo lançamento era um dos sonhos de Emmanuel 7Linhas, já estava pronto, prestes a ser lançado, quando ele morreu. Tem como uma de suas marcas a denúncia social contra a violência que atinge principalmente pessoas negras periféricas, portanto, a mesma truculência do qual foi vítima. A proposta de o lançamento fazer parte da programação do Cine Luso partiu da própria organização do evento.

A diretora do Cine Luso, Aline Yasmin, recorda que a participação de Emmanuel 7Linhas na primeira edição da Mostra, em 2025, foi fundamental para o sucesso do evento. Apesar de ter sido convidado para se apresentar como MC, sua atuação foi além. O multiartista, diante da importância dos debates, que pautavam temas como racismo, violência urbana e desigualdade social, se prontificou a ser mediador das discussões realizadas após a exibição das produções audiovisuais, afinal, a sua arte sempre denunciou essa realidade.

“Foi um encontro muito bonito e queríamos ele de volta na Mostra este ano. Quando soubemos de sua morte, isso nos chocou profundamente. Queremos fazê-lo presente por meio dessa homenagem. Ele acabou se tornando uma representação daquilo que a gente quer debater, pois no Cine Luso a gente questiona as desigualdades sociais e diversos aspectos que levaram à morte dele”, diz Yasmin.

A universitária Mayrianne Mattos, filha de Emmanuel 7Linhas, destaca que o lançamento do livro era não somente um sonho de seu pai, mas também de todos que o admiram e o amam. “Meu pai era dono de uma escrita marginal, ácida e potente. Esse livro tem um poder enorme de trazer à tona vários sentimentos: revolta, consciência, afeto, tristeza, esperança e coragem. Fazer o lançamento no momento político que vivemos representa um movimento de resistência e afeto, algo que também representa quem meu pai foi e o legado que ele deixou no mundo”, diz.

Mayrianne afirma que sua família busca preservar o legado que seu pai deixou por meio da arte. “Quando escolhemos não nos calar, mas permanecer divulgando seu trabalho, honramos seu legado e ao mesmo tempo reivindicamos justiça por ele e por tantos outros que se foram e que ele denunciava. Pegar o livro em mãos foi um momento muito especial. É como ter um pedaço dele vivo para tocar e ouvir sua voz através dos poemas. Espero que chegue a muitas pessoas e a muitos lugares. Sinto que ele estará sempre vivo enquanto for lido, ouvido, declamado, sentido. A arte mata a morte e eterniza os poetas”, diz.

As homenagens a Emmanuel 7Linhas não serão restritas ao lançamento do livro. De 11 a 14 de novembro, também como parte da programação do evento, haverá uma instalação com fotos do multiartista no Cine Metrópoles, na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), campus de Goiabeiras. As imagens são de autoria da fotógrafa Ellen Fegler.

Vida dedicada à arte

Emmanuel 7Linhas nasceu em Vitória, em 1980, e cresceu em Vila Velha, no bairro Santos Dumont. Fez parte dos grupos de Hip Hop Diretoria du XV e Intifada RAM. Também integrou o trio A Priori – Música Brasileira do Brasil, que apresentava releituras da música popular brasileira em bares da Grande Vitória. Além disso, foi compositor e intérprete da banda Pó de ser emoriô, que abriu o show do cantor Moraes Moreira, em comemoração aos 40 anos do disco Acabou Chorare, na Estação Porto, em Vitória, no ano de 2012.

Ainda com Pó de ser emoriô, Emmanuel 7Linhas subiu ao palco do Teatro Carlos Gomes, em Vitória, com lotação esgotada, para o lançamento do CD da banda; e se apresentou no Festival Multipliquei, em Muqui, no sul do Espírito Santo; no Festival de Inverno de Domingos Martins; no Festival Acorde Capixaba, no Sesc Glória, Centro de Vitória; e no Festival Patrimônio da Música, em Patrimônio da Penha, no Caparaó Capixaba.

Também contribuiu para a cultura capixaba como compositor e intérprete do grupo Céu do Congo, com apresentações no Carnaval de Congo de Roda d’água, em Cariacica. Fez parcerias com outros artistas do Espírito Santo, como Idalina Dornellas, em seu primeiro CD solo, intitulado Idalina; e Fepaschoal, com quem foi um dos compositores da música

O multiartista também realizava oficinas de Hip Hop e escrita criativa. Em 2022, junto com a jornalista e escritora Elaine Dal Gobbo, ministrou oficinas de micro poesias na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMF) São Jorge, em Cariacica, para estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA), que tiveram os textos produzidos nas oficinas publicados no livro Sobre Jovens e Adultos. Além disso, fez trabalho voluntário no pré-vestibular comunitário Educal, que preparava estudantes de origem popular para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como forma de possibilitar a democratização do acesso ao ensino público superior.

Atuou, ainda, como realizador do Sarau do Fim do Mundo, experiência que trouxe de São Paulo, onde se destacou em grupos como Slam Antirracista. Em parceria com o escritor e cineasta Márcio Miranda Moraes, atuou como educador popular no Cineclube Nova Orla, realizado na Orla de Cariacica.

Cine Luso

Com  o tema Viver, Ver e Enxergar: Sociedade e Consciência Crítica, a II Mostra Cine Luso contará também com oficinas, cursos livres e exibições de produções audiovisuais seguidas de debate. Toda a programação do evento é gratuita. As formações, que já atingiram o limite de vagas, abordam o cinema a partir de perspectivas transnacionais, anticoloniais e de transformação social. A realização local é da Interferências Filmes, do cineasta Ricardo Sá. 

Programação completa

Data: 04/11 – quarta-feira

18h30 | Lançamento: Sarau do Fim do Mundo. Lançamento do livro e homenagem a Emmanuel 7Linhas | Casa Cousa

Data: 05/11 – quinta-feira

14h–18h | Oficina (aula aberta): Gerando impacto para filmes documentários: do global ao local, com Leonard Cortana (Guadalupe/França) e Aline Yasmin (BE/BR) | Centro Cultural Sesc Glória

Data: 06/11 – sexta-feira

18h–21h | Curso Livre (dia 1): Cinemas em Língua Portuguesa: Autoinscrição, território e memória entre África, Portugal e Brasil, com Michelle Sales (RJ/BR) | Centro Cultural Sesc Glória

Data: 07/11 – sábado

14h–18h | Curso Livre (dia 2): Cinemas em Língua Portuguesa: Autoinscrição, território e memória entre África, Portugal e Brasil, com Michelle Sales (RJ/BR) | Centro Cultural Sesc Glória

18h30–20h30 | Sessão debate: Justiça pra Marielle. Exibição do curta-metragem e debate com o diretor Leonard Cortana (Guadalupe/França) e Kitty Furtado (Angola/Portugal) | Centro Cultural Sesc Glória

Data: 08/11 – domingo

14h–18h | Curso Livre (dia 3): Cinemas em Língua Portuguesa: Autoinscrição, território e memória entre África, Portugal e Brasil, com Michelle Sales (RJ/BR) | Centro Cultural Sesc Glória

18h30–20h30 | Sessão Curtas Ancestrais | Centro Cultural Sesc Glória

Data: 09/11 – segunda-feira

16h–18h | Sessão Curtas Ancestrais | Centro Cultural Sesc Glória

19h–21h | Sessão Curtas Decoloniais | Centro Cultural Sesc Glória

Data: 10/11 – terça-feira

16h–18h | Sessão Curtas Decoloniais | Centro Cultural Sesc Glória

19h–21h | Sessão Curtas Ancestrais | Centro Cultural Sesc Glória

Data: 11/11 – quarta-feira

18h30–21h30 | Cine Debate 1: A casa e o mundo: território e modos de habitar | Cine Metrópolis (UFES)

Data: 12/11 – quinta-feira

9h–12h | Oficina (dia 1): Pretuguês e outros crioulos no cinema negro em Portugal, com Kitty Furtado (Angola/Portugal) | Cine Metrópolis (UFES)

14h30–17h30 | Cine Debate 2: Trabalho, tempo e dignidade: o corpo na engrenagem | Cine Metrópolis (UFES)

18h30–21h30 | Cine Debate 3: Corpos que resistem: história, raça e pertencimento | Cine Metrópolis (UFES)

Data: 13/11 – sexta-feira

9h–12h | Oficina (dia 2): Pretuguês e outros crioulos no cinema negro em Portugal, com Kitty Furtado (Angola/Portugal) | Cine Metrópolis (UFES)

14h30–17h30 | Cine Debate 4: Juventude em resistência: arte, repressão e ativismo | Cine Metrópolis (UFES)

18h30–21h30 | Cine Debate 5: Vozes do feminino: mulheres como potência de mudança | Cine Metrópolis (UFES)

Data: 14/11 – sábado

14h30–17h30 | Cine Debate 6: A cidade e o abismo: desigualdade e invisibilidade urbana | Cine Metrópolis (UFES)

18h–21h30 | Encerramento e sessão especial: O Riso e a Faca, de Pedro Pinho | Cine Metrópolis (UFES)

Créditos das imagens: Ellen Fegler

Por Elaine Dal Gobbo