Pr. Cleber Montes Moreira
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“Dize aos filhos de Israel que marchem.”_ (Êxodo 14:15)
Ao conversar com um conhecido sobre a grave situação em que se encontra o nosso país, ouvi uma frase que parece ter se transformado em clichê entre muitos cristãos: “Devemos descansar em Deus”. Em outra ocasião, tratando do mesmo assunto com um irmão na fé, ouvi como resposta: “Vou apenas orar”. Não há nada de errado em descansar no Senhor ou dedicar-se à oração. O problema começa quando essas expressões, embora aparentemente piedosas, são utilizadas como justificativa para a omissão diante de situações que exigem posicionamento, coragem e responsabilidade.
É evidente que devemos descansar em Deus. A Bíblia nos ensina a lançar sobre Ele toda a nossa ansiedade, porque Ele tem cuidado de nós (1Pe 5:7), e a confiar no Senhor de todo o nosso coração (Pv 3:5-6). O salmista também nos exorta: _“Descansa no SENHOR, e espera nele”_ (Sl 37:7). Entretanto, confiar em Deus não significa negligenciar aquilo que Ele nos confiou como responsabilidade. A fé não nos dispensa da obediência, nem a oração nos isenta de agir quando o próprio Senhor nos chama à ação.
Quando os israelitas estavam encurralados entre o mar Vermelho e o exército de Faraó, Moisés os encorajou a não temerem, porque o Senhor pelejaria por eles (Êx 14:13-14). Contudo, a resposta divina àquela situação não foi simplesmente uma recomendação para permanecerem descansando. Deus ordenou a Moisés: _“Dize aos filhos de Israel que marchem”_ (Êx 14:15). O livramento viria do Senhor, mas o povo deveria avançar conforme Sua ordem. A intervenção divina não anulava a responsabilidade humana.
Encontramos esse mesmo princípio em diversas narrativas bíblicas. José, diante da tentação, não ficou esperando passivamente que Deus o livrasse do pecado; fugiu da mulher de Potifar, mesmo sabendo que isso lhe custaria caro (Gn 39:7-12). Davi não se limitou a orar pela derrota de Golias: confiando no Senhor, tomou sua funda e enfrentou o gigante (1Sm 17:45-50). Ester, diante da ameaça de extermínio de seu povo, não se contentou em lamentar a situação. Depois de convocar um jejum, decidiu comparecer diante do rei, mesmo correndo risco de morte: _“E assim irei ter com o rei, ainda que não seja segundo a lei; e se perecer, pereci”_ (Et 4:16). Em todos esses casos, a confiança em Deus não produziu passividade, mas coragem para cumprir aquilo que precisava ser feito.
Isso não significa que toda situação exija uma reação imediata, nem que devamos agir impulsivamente, sem buscar a direção do Senhor. Há momentos em que esperar é uma demonstração de fé, e há circunstâncias em que a melhor decisão é permanecer em silêncio. O próprio Deus, em determinadas ocasiões, ordena que Seu povo fique quieto e contemple o Seu livramento (Êx 14:13-14). Entretanto, também há momentos em que a espera se transforma em desobediência, e o silêncio, em cumplicidade com o erro. Precisamos, portanto, discernir quando Deus nos chama a esperar e quando nos ordena a marchar.
A negligência diante do dever pode ser tão grave quanto a prática deliberada do mal. Tiago apresenta um princípio que não podemos ignorar: _“Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado”_ (Tg 4:17). A omissão também pode constituir pecado. Não basta deixar de praticar o mal; precisamos estar dispostos a fazer o bem quando temos conhecimento, oportunidade e responsabilidade para realizá-lo.
Seria absurdo imaginar alguém descansando tranquilamente enquanto uma criança se afoga diante de seus olhos, quando poderia socorrê-la. Da mesma forma, é escandaloso contemplar uma injustiça, tendo condições de intervir, e utilizar uma expressão religiosa para justificar a própria indiferença. Não é diferente de alguém que, em vez de socorrer uma pessoa em perigo, limita-se a gravar a cena com o celular. Em situações assim, a passividade não é prudência, mas falta de amor e responsabilidade.
Isso também se aplica à vida pública. O cristão não deve confundir sua confiança na soberania de Deus com indiferença diante dos problemas da sociedade. Podemos e devemos orar pelas autoridades (1Tm 2:1-2), mas também precisamos exercer nossa responsabilidade como cidadãos, manifestar-nos contra a injustiça, defender a verdade e não nos conformar com aquilo que contraria os princípios da Palavra de Deus. A Bíblia não nos chama à omissão, mas a sermos praticantes da Palavra, e não somente ouvintes (Tg 1:22).
É importante compreender que não somos responsáveis por controlar os resultados, mas somos responsáveis por nossa obediência. Deus continua soberano, e nenhuma ação humana pode frustrar Seus propósitos. Contudo, essa soberania jamais deve servir de desculpa para nossa negligência. O Senhor pode realizar Sua obra independentemente de nós, mas, em Sua vontade, frequentemente nos concede o privilégio e a responsabilidade de participar dela.
Portanto, não transformemos o descanso em acomodação, a oração em desculpa para a inércia ou a confiança em Deus em justificativa para a covardia. Oremos, sim, mas também ajamos quando houver uma responsabilidade a cumprir. Esperemos no Senhor, mas estejamos preparados para marchar quando Ele assim ordenar. Afinal, a fé que verdadeiramente confia em Deus não se omite diante daquilo que Ele nos manda fazer.
*Aplicação prática:*
Examine se, em alguma área da sua vida, você tem utilizado a expressão “vou deixar nas mãos de Deus” para evitar uma responsabilidade que deveria assumir. Talvez seja necessário tomar uma atitude diante de uma injustiça, corrigir um erro, proteger alguém, testemunhar de Cristo ou posicionar-se em defesa da verdade. Ore, busque a orientação das Escrituras e tenha coragem para fazer o que é correto. Lembre-se de que Deus não nos chama apenas a confiar Nele, mas também a obedecer à Sua Palavra.
*Pergunta para reflexão:*
Tenho confiado verdadeiramente em Deus ou utilizado a confiança Nele como justificativa para me omitir diante de responsabilidades que deveria assumir?
*Oração:*
_Pai celestial, livra-me de uma fé acomodada, que utiliza a confiança em Ti como desculpa para a omissão. Dá-me discernimento para saber quando esperar e coragem para agir quando for necessário. Que eu seja obediente à Tua Palavra, não apenas em palavras, mas também em atitudes. Em nome de Jesus. Amém.
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