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Obra reúne memórias e fotografias históricas para contar a trajetória de Henrique Rato, imigrante português que ajudou a transformar a paisagem da Grande Vitória e deixou um legado de empreendedorismo, fé e solidariedade
A história de um dos bairros tradicionais da Serra, a origem de um Santuário e a trajetória de uma família portuguesa que ajudou a transformar a paisagem capixaba estão reunidas em “O Manto que me deram”, livro de Leonor Rato. Aos 85 anos, ela transforma suas memórias em um registro da imigração portuguesa e das mudanças vividas pelo Espírito Santo no século XX.
O lançamento será no dia 15 de novembro, após a missa das 10h30, no salão anexo ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima, na Serra. O templo foi idealizado pelo pai da autora, Henrique Rato, cuja trajetória também inclui a criação do restaurante Madragoa, referência gastronômica e social na Grande Vitória.
A narrativa acompanha a família desde Portugal, no início dos anos 1900, até a construção de suas raízes no Brasil. Henrique chegou ao Rio de Janeiro em 21 de março de 1929, aos 26 anos, a bordo do vapor inglês Astúrias. Sua intenção era abrir caminho para a chegada da mãe e do irmão mais novo, que enfrentava uma grave doença.
Após trabalhar no comércio carioca, recebeu uma oportunidade em Vitória, onde participou da implantação das Casas Pernambucanas, na Vila Rubim, e da abertura de filiais pelo Espírito Santo e por Minas Gerais. Mais tarde, no interior capixaba, conheceu Anna Fiorotti, com quem formou sua família.
Antes de se tornar conhecido pela criação do Bairro de Fátima, Henrique atuou em diferentes negócios. Em Itarana, investiu na produção de aguardente, aproveitando uma antiga patente da família de Anna Fiorotti. Durante a Segunda Guerra Mundial, restrições governamentais interromperam a atividade. Para sustentar a família, passou a transportar café do interior capixaba ao Rio de Janeiro, em viagens de até cinco dias por estradas de terra.
Com o fim da guerra, retomou a produção, batizada de Cachaça Ipiranga. O livro reproduz o primeiro rótulo da bebida, datado dos anos 1940. Foi durante os deslocamentos entre o interior e a capital que surgiu a oportunidade de adquirir as terras que dariam origem ao Bairro de Fátima.
De uma fazenda ao nascimento de um bairro
A antiga Fazenda Pau Brasil, na Serra, seria inicialmente destinada ao cultivo de cana-de-açúcar. A mudança de planos ocorreu após uma visita do então bispo de Vitória, Dom José Joaquim Gonçalves, que sugeriu a construção de um santuário dedicado a Nossa Senhora de Fátima e incentivou Henrique a criar um loteamento no entorno.
A proposta ganhou forma na década de 1950. O bispo imaginava o templo como outro importante centro de devoção, desta vez na Serra, somando-se ao Convento da Penha, em Vila Velha. “O santuário será o coração”, disse, ao defender a criação do bairro.
O livro recupera as dificuldades de transformar a área de mata em uma comunidade, com abertura de ruas, construção de casas e implantação de serviços. Henrique chegou a criar uma linha de ônibus para facilitar o acesso. Também doou um terreno de seis mil metros quadrados para a construção de uma escola estadual, que recebeu o nome de Clotilde Rato, sua mãe.
A devoção que atravessou o Atlântico
A devoção de Henrique começou ainda na adolescência, em Lisboa, quando acompanhou a movimentação de fiéis em direção a Fátima, em 1917. Durante as viagens pelo Brasil, levava uma pequena imagem da santa, protegida por camadas de lã, e a colocava em destaque em cada nova residência. Como escreve Leonor, “A Santa não era apenas uma estátua. Era o ponto fixo em meio às mudanças”.
A imagem também esteve presente em um episódio dramático na infância da autora. Em Itarana, uma vela acesa em devoção à santa provocou um incêndio ao atingir uma cortina. Leonor, ainda bebê, foi retirada do berço pela tia pouco antes de as chamas se espalharem. A imagem ficou marcada pelo fogo e, anos depois, foi restaurada pela própria Leonor.
Outro momento decisivo ocorreu em 17 de abril de 1953, quando a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, vinda de Portugal, esteve no terreno do futuro santuário. Henrique ajudou a organizar a visita e providenciou transporte para meninas do Orfanato Santa Luzia participarem da celebração. Na ocasião, foi lançada a pedra fundamental do templo. Leonor, então com 12 anos, acompanhou a solenidade, que reuniu autoridades religiosas e moradores.
Para arrecadar recursos, Henrique organizou campanhas de contribuição, com cartões que representavam tijolos simbólicos, e rifas de terrenos. Leonor e a irmã Adelaide, ainda crianças, percorriam as casas pedindo ajuda para a construção.
Henrique ainda encomendou ao artista Carlo Crepaz uma imagem de Nossa Senhora de Fátima esculpida em madeira de jacarandá. Enquanto o santuário não ficava pronto, a escultura permanecia na casa da família e era levada à capela de madeira para missas, batizados, casamentos e procissões.
A construção do templo enfrentou obstáculos. O projeto previa uma torre imponente, mas a proximidade com o aeroporto de Vitória impôs restrições à altura. Mudanças na liderança religiosa também interromperam as obras, e a capela de madeira continuou acolhendo os fiéis durante anos.
Henrique morreu em 11 de julho de 1984 sem ver o templo concluído. Antes, porém, pediu aos filhos que preservassem a área destinada ao santuário. Diante da possibilidade de venda do terreno, foi categórico: “Este terreno não se vende”.
A família manteve a promessa. Cerca de duas décadas depois, a imagem de jacarandá deixou a residência e ocupou definitivamente o altar-mor do Santuário de Nossa Senhora de Fátima, concretizando o sonho do imigrante.
Memórias que atravessam gerações
A obra também resgata o papel das mulheres na preservação da história familiar, a partir das lembranças da avó Clotilde, das experiências de Anna Fiorotti e das vivências da própria autora. Fotografias do acervo familiar documentam a vida em Portugal, a imigração, as primeiras construções do bairro e momentos da sociedade capixaba.
A produção editorial é assinada pela filha de Leonor, Ana Cristina Rato Schultz, que ajudou a transformar as recordações maternas em um legado literário. O título remete à história familiar: segundo a tradição, o sobrenome Rato foi recebido pelo avô José como gesto de acolhimento e afeto, tornando-se símbolo de pertencimento e identidade.
Ao registrar a trajetória do pai, Leonor preserva a história de um homem que atravessou o oceano para construir uma nova vida e transformou sua devoção em legado para a comunidade. Reunindo imigração, empreendedorismo, religiosidade e desenvolvimento urbano, o livro transforma lembranças pessoais em testemunho de uma época da história capixaba.
Nas páginas finais, a autora resume o sentimento que motivou a publicação: “Henrique atravessou um oceano para plantar. Eu atravessei a memória para colher”.
Sobre o livro
O Manto que me deram, de Leonor Rato, foi publicado em 2026, em edição da própria autora. A obra conta com produção editorial de Ana Cristina Rato Schultz, capa de Rubens Lima e fotografias do acervo da família Rato. O livro, de 272 páginas, divididas em 52 capítulos e dezenas de fotografias do acervo da família, aborda a imigração portuguesa, as origens do Bairro de Fátima, a construção do Santuário de Nossa Senhora de Fátima, a trajetória do restaurante Madragoa, os empreendimentos da família e a transmissão de valores ao longo das gerações.
A autora
Leonor Mendonça Martins Rato Schultz não é escritora. É uma senhora de 85 anos que viveu muito, amou muito e guardou na memória histórias que só ela sabe contar. Filha de Henrique Rato, Leonor sempre caminhou lado a lado com seu pai, inclusive nos negócios imobiliários, e preservou as memórias dessa trajetória. Um dia decidiu que essas lembranças não podiam se perder: os filhos, os netos e os que vierem depois precisavam saber de onde vieram. Foi então que a filha, Ana Cristina Rato Schultz, sentou-se ao seu lado para ouvir e escrever. As conversas viraram capítulos, e as memórias narradas e as fotografias documentadas ganharam a forma deste livro.
Lançamento do livro “O Manto que me deram”
Data: 15 de novembro de 2026 (domingo)
Horário: após a missa das 10h30
Local: salão anexo ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima, Bairro de Fátima, Serra (ES)
Autora: Leonor Rato
Pré-venda: https://clubedeautores.com.br/livro/o-manto-que-me-deram
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